Afinal eram um puto que lá estava! E grande!!

A tua mãe no Sábado acordou-me às 7 da manhã com a desculpa que não tinha dormido desde as 5 com cólicas! Tinham-lhe caído mal as castanhas da véspera... O mais interessante é que vinham de 10 em 10 minutos!...
Com essa é que ela me acordou!
"10 em 10 minutos??? Tens a certeza???" perguntei eu. Mas mesmo antes de ela responder que sim, eu já sabia a resposta: tinham-me estragado o meu sábado de artes marciais. O teu pai ia passar o sábado inteirinho a ouvir a mãe a chamar-lhe nomes, que nunca mais lhe tocava, que a culpa era dele, e outros impropérios que tais!
Assim, iniciei de imediato as contra-medidas necessárias. Brincadeiras, muita calma (aparente) e método na preparação das coisas para levar para o hospital. Tudo para não haver desculpas da culpa ser dele... "EEEUU?? Eu sou tããoo querido... Até te levo a mala..."
Ainda com a remota esperança que fosse mesmo das castanhas, lá saímos para o hospital de imbambas às costas, com rigor na contagem para que as contrações, agora de 4 em 4 minutos, fossem poucas daqui até ao hospital! Não que fosse longe, cinco minutos a pé chegaram!!
Lá consegui que a tua mãe fosse atendida, e eis que a notícia chega: "3 cm de dilatação! Já não sai daqui hoje..." disse o médico de serviço. Ora, ora, da tarde de trabalhos já não me safava!
Mas eis o volte-face do enredo, antes mesmo que me apercebesse, estava a tua mãe a levar a epidural.
Oh! maravilha da ciência moderna! Nem uma dor!! Eu via as não-dores a virem e irem, no pequeno ecrã do CTG, e com cada uma menos uma agressão a sofrer!! Sim, porque isto de sofrer no parto não é só para as mulheres, sofremos nós também por tabela.
E há medida que as horas iam passando, galhofando íamos todos, teus avós incluídos, para a hora em que nos irias conhecer.
Estava já eu embriagado com o alívio anterior, ao qual não me canso de chamar maravilha, quando surgiu. Leve e lenta mas seguramente, ia crescendo dentro de mim: o nervoso miudinho do pai que espera o seu filho.
Primeiro, era o médico, esse desclassificado, que não chegava! Que interessava que estivesse de folga?? No dia do MEU FILHO NASCER??!!?
Depois as enfermeiras, que não me diziam de 10 em 10 segundos, intervalo mínimo aceitável para um serviço da mínima qualidade!, cada milímetro que iamos ganhando até chegar à sala de parto!
E para matar, de novo o médico, agora inqualificável!!, que ao entrar, TARDE, na sala de parto se digna a dizer: "Eh lá!! Essa barriga está tão alta! Se calhar temos que fazer uma cesariana."
O coração do teu pai ainda é jovem e saudável, foi o que o salvou, porque o mais leve indício de endurecimento das coronárias ter-te-iam feito orfão mesmo antes de nascer.
Agora completamente desconcertado, lá consegui manter a câmara de video direita na mão sem a deixar cair. Esforço hercúleo, filmar estava fora de questão!
Profissionais como são, a equipa ignorou mais um pai desnorteado, mantido no seu canto neutro onde não poderia fazer grandes estragos quando (e não se) desmaiasse. Armados de uma ventosa e de um braço forte da parteira de serviço (pergunto-me se será um pré-requisito), em menos de 3 minutos estavas cá fora...
"Espera aí..." pensei eu, "está cá fora... ESTÁ CÁ FORA!!!". Como uma fénix erguida das cinzas, eis que os braços flácidos e derrotados ganham de novo vida! Filmar, filmar, regista os primeiros momentos do teu filho! Não penses, AGE!! Esquece o pânico, regista para que não te esqueças e para que a mãe do teu filho veja também os seus primeiros momentos! Minha nossa, 4kgs!!!
Tudo se apagou, tudo perdeu importância, tudo era paz. Estavas ali, estavas vivo e eras perfeito.